MEIO FIO
entrevista ao Ateliê
Aberto
No dia 22 de setembro, Campinas teve seu cotidiano modificado por um projeto
artístico de intervenção urbana que conectava a cidade às comemorações
internacionais do Dia Sem Carro organizadas na cidade pela EMDEC – Empresa
Municipal de Desenvolvimento de Campinas, em conjunto com a Setransp –
Secretaria Municipal de Transportes.
O espaço que abriga a torre e a praça do Castelo, como é chamado o bairro,
lugar escolhido para a intervenção de 2006, ampliou a conjunção proposta
entre estética, sociedade e educação.
A proposta deste ano efetivou a paralisação completa das três faixas de rua
do entorno da praça, uma região que, além de estar localizada próxima à
central, é ponto de circulação urbana intensa de automóveis e está cercada
por muitos comércios, postos de serviços, escolas e rádio transmissoras.
A seqüência de idéias aqui apresentada discursa sobre os aspectos híbridos
cada vez mais fortes no campo da ação contemporânea de profissionais ligados
direta ou indiretamente à arte, à cidade e aos seus fluxos. Explora
distintos aspectos do projeto para dar continuidade às discussões geradas
após a ação propriamente dita.
Optando por um formato de entrevista cuidadosa e aprofundada, a dupla de
arquitetos Patrícia Martins e Alcides Barbosa – integrantes da Ultradesign
Arquitetura e autores do projeto Meio Fio - responde às questões sobre
Cotidiano, Arte e Urbanidade para Sylvia Furegatti,pesquisadora do assunto e
integrante do Ateliê Aberto de Campinas.
Ateliê Aberto: Pelo tipo
de material, pela linguagem gerada, dentre vários outros aspectos, o projeto
Meio Fio indica uma linha constitutiva de intervenções artísticas sobre o
meio urbano que lembra muito os efeitos visuais praticados pelo búlgaro
Christo Javacheff nos empacotamentos de equipamentos urbanos que realiza
pelo planeta. Contudo, mais do que a forma, remete-nos ao conceito praticado
por ele de intervenção sutil sobre o site. Isso significa intervir de forma
harmônica, mesmo quando o ponto de partida conduz a um problema grave,
crônico, como esse que enfrentamos com uso do carro nos centros urbanos
atuais. Como vocês acreditam que a sutileza pode ter agido no caso do
projeto Meio Fio?
Ultradesign: O escopo
consistia em criar uma intervenção urbana que colaborasse com o sentido de
todo o evento, ou seja, difundir a reflexão sobre o uso do carro na cidade.
A nossa maneira de fazer isso foi através da experiência das pessoas na rua,
balizada por atividades e elementos visuais que se referiam à própria rua.
Esse arco feito pela tela não é gesto, nem referência arquitetônica. Ele
segue exatamente o meio-fio, na extensão necessária para evitar o cruzamento
da praça pelo público. A altura do arco foi definida pelos postes de
sinalização e pela altura dos ônibus, inclusive usando os mesmos tubos de
aço das placas urbanas. Por não podermos atirantar nem furar a praça, e para
não criarmos uma grande base, que além de feia criaria obstáculos aos
pedestres, optamos por fazer 26 furos de 6 cm de diâmetro por 30 cm de
profundidade no concreto do meio-fio, o que fez com que a estrutura
desaparecesse. Foi prevista uma folga de 1 cm no diâmetro do furo a fim de
corrigir, com uma cunha de madeira, o prumo do arco e absorver
irregularidades do piso. Nossa tela, através da transparência, evidenciou as
barreiras para os pedestres. E as barreiras são sutis, como degraus de 20 cm
de concreto ou a velocidade dos veículos. Então, usamos a mínima presença
física necessária para assegurar sua visibilidade, no sentido mais amplo do
termo. Trazer visibilidade a um movimento que busca alternativas pra
melhorar a qualidade de vida na cidade. Existe uma leveza visual, mas em
nossa opinião, essa sutileza a que você se refere é conceitual. Está em um
elemento que parte de uma vocação funcional (a de organizar as atividades) e
dela consegue sua forma e seu efeito através da inversão de usos que
provoca: a praça, isolada pela dificuldade de acesso, mas ao mesmo tempo
visível pela transparência, tem seu caráter árido e isolado reforçado pela
alta concentração dos pedestres na rua, no lugar dos carros. Em parte, o
Meio Fio é esse elemento visual; mas quando está realmente operando, ele é
uma barreira que criou alta densidade no asfalto e baixíssima densidade na
praça seca. Ele foi construído para estruturar o evento e não teria o mesmo
sentido sem todas aquelas pessoas. Um outro aspecto que surgiu relacionado à
sutileza da proposta foi todo o trabalho de montagem que aconteceu no fim de
semana anterior – quando da execução dos furos (2 dias) e da montagem do
arco e da cobertura, na madrugada anterior do evento. A impressão que ficou
foi de que tudo surgiu de repente, na hora do evento.
Ateliê Aberto: Deixar a
praça limpa e ocupar as vias públicas. Convidar pessoas para o lugar onde
antes só estavam os carros. Alterar a velocidade e a paisagem conhecida
indicam processos de transformação levantados com a construção temporária do
arco. A idéia da troca dos usos do espaço da praça e da rua constrói uma
poética tão instigante quanto caminhar sem a preocupação da sinalização e
das regras de conduta no meio urbano estressado da atualidade. Como a
arquitetura e o urbanismo trabalham essa suposta relação de utopia? A
proposta do Dia sem Carro, movimento internacional que perdura por nove anos
(praticada mais recentemente no Brasil, ainda em poucas cidades) pode ser
compreendido como um projeto urbanisticamente utópico?
Ultradesign: Na cidade
sem meu carro. Na cidade sem meu lugar. É bem sabido que não é por exclusiva
praticidade que as pessoas se apegam a seus carros. Pedir para que saiam sem
carro é como um convite para uma outra identidade. Inicialmente, queríamos
que os carros passassem entre os ciclistas e pedestres, em livre negociação.
A intervenção consistiria na interação entre os elementos espaciais e da
ação dos agentes da EMDEC monitorando o fluxo entre carros e pedestres
dentro do evento. O foco estaria mais na convivência entre os diferentes
modos de deslocamento. Apesar de parecer utópico, o compartilhamento dos
espaços é considerado hoje como um objetivo a ser alcançado. Como havia uma
extensa programação para o evento e a necessidade de muitos equipamentos,
optamos por focar mais na rua como lugar de estar, livre de trânsito,
parado. Essa inversão foi utilizada de várias maneiras. As pessoas na rua, a
praça vazia, a água presa na torre vertical liberada horizontalmente nos
aspersores, uma barreira transparente, os ônibus como salas etc. O evento
gerou um desconforto para quem queria só passar de carro, mas os benefícios
ficaram evidentes para quem estava lá. Quando o evento for feito com maior
freqüência e em mais cidades do Brasil, de modo a ser incorporado na rotina
das pessoas e principalmente na pauta da mídia, perderá esse caráter
"utópico". É como o rodízio em São Paulo – as pessoas cooperam, organizam
caronas, mudam suas atividades costumeiras em função disso. Dormir até um
pouco mais tarde e emendar o trabalho com um happy-hour na esquina, ou
acordar mais cedo e pegar o filho na escola à tarde passam a ser atividades
possíveis, socialmente aceitas.
Ateliê Aberto:
Partindo da materialização de construções já admitidas como simbólicas para
o pensamento contemporâneo, dadas por sua criação numa estrutura
mutante, inovadora, tão ousada quanto atualizada no plano financeiro
proposto, tal como o projeto de Frank Gehry para o Museu Guggenheim de
Bilbao-Espanha, passamos a compreender melhor quais são as novas demandas
e tempos dedicados ao trabalho do arquiteto e do artista no mundo
contemporâneo. Esses dois agentes, cada vez mais, fundem suas habilidades em
projetos híbridos nos quais Arte e Arquitetura configuram termos
indistintos. O exemplo, obviamente grandiloquente, serve-nos apenas para
pontuar os esforços que temos na produção e no pensamento de projetos
culturais em lugares menos privilegiados do planeta e pretende, antes de
qualquer coisa, ressaltar a qualidade efêmera das propostas de intervenção
para o Dia Sem Carro que têm sido executadas no Brasil. O efêmero em Arte
tem sido quase que uma convenção desde os primórdios da contemporaneidade
artística, guarda relações com a facilidade e viabilidade de pesquisa com
novos materiais, com o lugar alternativo ao circuito oficial. Imprime a
qualidade experimental típica do processo criativo das novas linguagens. E
na Arquitetura? Como se dá essa equação tempo x permanência? No caso do
projeto Meio Fio, esse empenho e dimensionamento foi mais fácil ou mais
difícil?
Utradesign: O programa
de um evento, comparado ao de um edifício, exige maior detalhamento do tempo
e dá maior flexibilidade à forma. Também o tempo de projeto é bem maior do
que o tempo de execução. Essa inversão acontece de modo a reduzir ao máximo
o período de montagem e desmontagem. No caso do projeto Meio Fio,
conseguimos reduzir os elementos a dois tipos de poste, dois tipos de fios
de nylon e duas telas inteiriças (horizontal e vertical). Essa
racionalização construtiva seria uma especificidade arquitetônica? E os
significados explorados seriam especificidades artísticas? Vendo dessa
maneira, talvez a questão do tempo, hoje comum a ambas as disciplinas, seja
o que leve a essa indistinção. No caso do projeto de Frank Gehry para o
Museu Guggenheim de Bilbao-Espanha, a efemeridade ou o tempo são tratados no
plano financeiro, de viabilidade econômica do empreendimento. No caso do
Meio Fio, é um problema do plano operacional, de funcionalidade do evento. É
o que torna viável um fato cultural como este factível na situação
brasileira. Diferentemente do museu norte-americano, instituições como a
EMDEC e a Secretaria de Transporte lançam mão da intervenção artística como
meio de educação e melhoria da qualidade de vida. Porém, mesmo nos países
ricos, a menor vida útil dos edifícios é uma tendência, associada à maior
velocidade do fluxo de capitais e do dinamismo econômico e cultural. Assim,
o efêmero em arquitetura também está cada vez mais associado à inovação e à
experimentação. Gehry foi mais efêmero quando era alternativo. A permanência
é a permanência da instituição que está sendo construída. Se continuar
funcionando no mercado e na cultura, permanece na arquitetura. A arquitetura
dá forma a essa instituição. Hoje, temos ambulantes fixos, por que não
efêmeros permanentes? Não há oposição para a arquitetura, ela pode
internalizar os conflitos. Se a instituição quiser. Casa de Família,
Escritório de Empresa, Arte do Estado.
Ateliê Aberto: Li há
pouco um artigo da Sueli Rolnik (Um novo lugar para o velho centro) no qual
ela discorre sobre os sentidos possíveis de serem aplicados à reabilitação
dos centros urbanos brasileiros, partindo da idéia da urbanização como
mercadoria de luxo. Pontuando o contexto de um país de grandes adversidades
culturais e sociais que sofre os problemas da falta de memória, preservação
e valorização dos seus centros urbanos, como o nosso, ela pontua os
problemas atuais que as instituições públicas e privadas têm enfrentado para
ressemantizar, sem excluir, o passado histórico dos antigos centros. Tudo
isso me fez pensar no quanto as intervenções artísticas elaboradas para
espaços públicos são costumeiramente confundidas/acusadas de serem propostas
setorizadas, elitistas e compulsórias originadas por artistas ou arquitetos
numa investida contra o uso cotidiano do espaço dito público, sem
necessariamente entrar em acordo com aquela comunidade que será
atingida. Gostaria de discutir com vocês sobre o sentido do luxo inerente às
propostas artísticas que incidem sobre o urbano hoje...e sobre essa suposta
proteção do usuário-espectador-consumidor. Como seria possível tornar a
sofisticação típica desse formato de trabalho mais palatável? Como o projeto
empregou ou absorveu meios para se fazer compreendido conceitualmente? E por
fim, vocês acreditam que essa conversa que estamos estabelecendo aqui se
inclui nesse tipo de preocupação?
Ultradesign: Em nossas grandes cidades, devido aos grandes fluxos
migratórios, não faz tanto sentido se preocupar com a memória, mas com o
reconhecimento de uma nova identidade. A ressemantização deveria ter a ver
com o valor de uso atual do lugar, incluir atividades marginais e minorias,
propor uma identidade coerente com a realidade urbana. Parece-nos que a
maioria das propostas de reabilitação urbana não tem se preocupado em
ressemantizar nada. A tônica das propostas tem sido colocada no valor
imobiliário, no custo das estruturas urbanas ou na nostalgia idealizadora do
passado. Existem, contudo, intervenções
artísticas/arquitetônicas/urbanísticas como a de Vito Acconci para o
ArteCidade. Elas têm como estratégia uma real incorporação de áreas
degradadas da cidade por quem realmente as usa, de forma a conseguir uma
renovação urbana não meramente embelezadora, mas programática. O que tornava
palatável a proposta de Acconci? Nos afastamos de citações arquitetônicas ou
artísticas e nos balizarmos pelos aspectos práticos. Os materiais utilizados
não foram de maneira nenhuma luxuosos, pertencem ao mundo da construção
agrícola, do trabalho. Não possuem característica de representação e nem de
afirmação de um caráter artístico, não se preocupando com uma compreensão
conceitual. Na nossa proposta, privilegiamos a leveza, a simplicidade e a
eficiência construtiva deixando que essas características transparecessem na
forma, de modo que o próprio uso e a experiência do lugar lhes dessem
sentido. Essa nossa conversa é um caminho inverso, é uma teorização da
experiência,e certamente tem sua função também, possibilitando uma reflexão
e uma fruição intelectual que se dá após o evento.
Ateliê Aberto: A ação
trabalhada nas comemorações do Dia Internacional sem Carro adota o contexto
contemporâneo da intervenção para se fazer notar na paisagem urbana. Tem
situado sua presença em pontos nodais para se compreender o fluxo de gente,
carros, das atenções quanto à sinalização e comunicação outdoor. Os lugares
escolhidos para tais ações são sempre cruzamentos de rua importantes ou
espaços de grande concentração de trânsito. Não faria o menor sentido se não
ocorressem exatamente nesses pontos. É claro que a reação do público que
visita esses projetos varia muito, mas nas experiências já realizadas com o
espaço urbano de Campinas é possível se comprovar pelo menos duas linhas de
resposta que replicam em outros centros urbanos. A primeira delas nos leva à
resposta dos pedestres espontâneos, usuários cotidianos daquele lugar
que compreendem e elogiam o contexto sugerido por esse tipo de projeto,
pessoas que nem sempre captam os aspectos estéticos do projeto, mas percebem
uma valorização local em ações coletivas institucionais feitas em nome de um
ideal público. De outro lado, a segunda voz é a dissonante. Diz respeito aos
usuários motorizados (geralmente assombrados pela pressa do cotidiano
interrompido pelo projeto). Esses espectadores observam, antes de qualquer
coisa, as alterações do seu cronograma para aquele trecho diário e esboçam
reações entre dúvida e indignação pelo constrangimento gerado pela
intervenção. Vocês certamente tiveram experiências dos dois gêneros nesse
dia. Poderiam relatar os exemplos mais marcantes?
R: Vivenciamos, com certeza, as duas experiências e percebemos respostas
diferenciadas dos mais diversos públicos em relação a intervenção Meio Fio".
Confirmamos três grupos marcantes.Um grupo que tem uma experiência
estimulada – composto por alunos, integrantes de instituições, professores e
funcionários da EMDEC – que, invariavelmente, aprova a iniciativa, é
receptivo à intervenção, e, por consequência, a defende e a divulga.
Acreditamos que, mesmo sem o contato cotidiano com a arte, esse grupo é o
que busca absorver os conceitos e a experiência. Por se tratar de um momento
extra-classe, a visita passa a ser uma referência marcante e que os prepara
para novos contatos. O público formado pelos moradores e comunidade das
imediações da instalação apresenta um interesse espontâneo e curioso de
presenciar a mudança promovida no cenário cotidiano, mas sua opinião sobre a
obra oscila entre a aprovação, pela valorização do espaço e até mesmo
visibilidade midiática, e repúdio, pelos transtornos impostos à mudança na
rotina do trabalho, da circulação e do trânsito. E, por fim, há uma resposta
extremamente desfavorável dos motoristas, pela cultura de apropriação do
espaço da via como espaço do carro - leia-se seu espaço, que não pode ser
compartilhado com os demais segmentos sociais. Essas pessoas, mesmo frente à
obra, não conseguiram sequer tomar conhecimento do que acontecia. A cegueira
imposta pela necessidade de cumprir seus compromissos impediu qualquer
possibilidade de contato com a intervenção. Não podemos deixar de considerar
que a cultura da velocidade e o ritmo frenético da contemporaneidade foram
barreiras limitadoras para a fruição no contato com a obra proposta.
Ateliê Aberto: Qual o
tempo ideal para uma intervenção urbana com as características que geraram
esse projeto?
Ultradesign: Se
inicialmente se pensava na jornada apenas como um dia de reflexão, hoje o
evento é produto de ações de meses, como o concurso entre estudantes da rede
pública de ensino ou o projeto de intervenção artística. Isso ainda depende
de um esforço de realização e divulgação quase que exclusivo da EMDEC/Setransp
e dos colaboradores diretos. Com o sucesso atual e a ampliação crescente da
divulgação pela mídia espontânea, esse evento vai se transformando numa
expectativa de grupos cada vez maiores e mais abrangentes. O tempo ideal
seria um processo contínuo, como o de uma escola de samba, onde tanto a
intervenção artística como as outras atividades do evento se pulverizam em
múltiplos agentes e ações ao longo do ano, para culminar em um dia de
celebração.
Ateliê Aberto: Pensando
sobre a parte mais plástica do projeto, ficamos com as referências da
transparência, da clareza e da leveza estabelecidas pela estrutura criada
que ora se apresenta na verticalidade do arco/parede/divisória do espaço,
ora se configura na cobertura do trecho menor. De que forma essas escolhas
podem refletir um direcionamento mais arquitetônico que artístico ao
projeto? Em outras palavras, como os dois aspectos desse trabalho se
encontram na proposta Meio Fio?
Ultradesign:
Independentemente do resultado plástico, o processo de projetação objetivou,
em primeiro lugar, o evento. A característica efêmera da proposta fez com
que utilizássemos materiais facilmente transportáveis, com poucos elementos
e de rápida montagem. Esses mesmos elementos foram dispostos horizontal e
verticalmente para a criação de ambientes ou ambiências. Eles eram índices
de uma organização espacial de natureza programática e não estética. Esse
encontro entre o artístico e o arquitetônico de que você fala se deu quando
um "lençol" branco esticado horizontalmente virou uma "cobertura" e, quando
esticado verticalmente, virou uma "parede". Essa cobertura transparente,
contudo, não protegia da chuva ou sol, mas definia um lugar especial no
evento, o auditório, onde ocorreram shows, premiações e discursos. Em
conjunto com a parede transparente, que não obstruía, criou-se um "ambiente
interno" no meio da rua, um local de concentração de pessoas e de
concentração da atenção, definido pela leve presença das telas. A sua
localização reforçou uma escolha anterior, baseada na topografia da rua: ela
ficou no trecho mais elevado e plano da rotatória. O arco/parede
necessariamente foi localizado também nesse trecho da rua, junto ao
auditório, e se prolongou para o oeste onde encontrava um raio maior do meio
fio, o que possibilitou maior unidade deste elemento vertical, fechando dois
quadrantes da praça. Esse arco criou um elemento que funcionava em
perspectiva, relacionando-se visualmente com a torre para quem estava no
lado mais baixo da praça. Desse ponto de vista, prevaleceu essa percepção
visual, fotogênica, proporcionada pela distância e pelo vazio da praça,
reforçados pelos vaporizadores e pelo branco da tela, que parcialmente
ocultavam a aglomeração e agitação na parte alta. Para quem estava próximo à
tela, havia uma percepção mais tátil e labiríntica, a todo o momento em
contato com os elementos de grande porte e a multidão, que se aglomerava
impedindo uma visão de conjunto, totalizante. Essa "parede" não impedia a
visão por ser semitransparente e intensificava as relações que buscamos de
cheio e vazio entre praça e rua.
Ateliê Aberto: Toda
a proposta, movimentada pela EMDEC (Empresa Municipal de Desenvolvimento de
Campinas) e pela Setransp (Secretaria Municipal de Transportes de Campinas),
indica um tipo de atuação que tem acontecido com freqüência na produção
artística da Arte Contemporânea. Cada vez mais a apresentação de projetos
artísticos elaborados como eventos efêmeros extra-muros e não como
exposições de objetos protegidos pelos espaços convencionados para a
Arte, aponta para uma pulverização definitiva dos agentes que dão origem às
manifestações culturais e artísticas. Deixa de ser pressuposto óbvio que o
museu ou o centro cultural sejam proponentes exclusivos de processos
de sensibilização estética para sua população. Outras instituições têm se
ocupado desse processo, reforçando o pensamento de Baudrillard quando esse
autor faz uma relação entre a desmaterialização do objeto artístico no
século XX e a conseqüente estetização da vida cotidiana atual, tal qual
temos presenciado. O projeto para o Dia Internacional sem Carro, em suas
duas últimas edições na cidade de Campinas, avança para além do seu primeiro
tom educativo, formal, movido pela esfera pública municipal ocupada com o
trânsito e o pedestre. Sua abertura para alcances maiores que os
administrativos fomenta a qualidade de humanização das relações conhecidas
de trabalho, lucro e uso comum do espaço urbano. Nesse caso, consegue isso
por meio da Arte em seu formato contemporâneo de intervenção. De que
maneira, em seus territórios originais, Arte e Arquitetura continuam essa
contaminação?
Ultradesign: Essa
contaminação é um processo cultural maior, que funde disciplinas e redefine
instituições. A Sony não é mais uma produtora de hardwares somente, ela
também produz os conteúdos e subprodutos dos pacotes de consumo. Uma
autarquia responsável pelo trânsito e transporte na cidade estende sua
atuação para a educação no trânsito; depois, para a conscientização sobre
modos de transporte; e, por fim, à própria sensibilização estética do
pedestre na rua. Nesses eventos, Arte e Arquitetura são antes de tudo mídia,
são meios através dos quais as novas instituições atingem seu público.
Dentro desse processo de contaminação, podemos dizer que eventos como o Dia
Internacional na Cidade Sem Meu Carro propõe atividades que não são da
esfera do consumo ou da produção, sua eficácia tem a ver com a
conscientização, com o caráter lúdico e humano, com a interrupção de um
cotidiano de ações automatizadas. Isso alcançou não somente o público do
evento, mas os comerciantes da região, os motoristas que foram desviados de
sua rota diária e inclusive o trabalho dos funcionários da EMDEC, que
passaram a lidar, entre suas tarefas cotidianas, com questões de natureza
não estritamente funcionais. Por outro lado, vemos que a tendência
internacional é de projetos como o estacionamento Mazda do NL Architects em
Amsterdã, aonde os motoristas são pagos para estacionar em vagas que formam
a logomarca do fabricante de carros, continuando o processo de
desmaterialização do objeto arquitetônico e se integrando à estetização do
cotidiano. Essa contaminação ocorre também no próprio programa
arquitetônico. Categorias de uso historicamente distintas se somam na busca
pela extrema eficiência e dinamismo. De uma maneira ou de outra, a
arquitetura contemporânea não se limita a recepcionar um acontecimento, ela
o promove.
Ateliê Aberto: Dentro
dessa proposta vocês incorporaram outras atividades lúdicas e de palestras,
não é isso? Foram planejadas ou absorvidas por vocês? Com certeza, esse foi
um dia/projeto repleto de camadas. Além da estrutura do Arco e do aspersor
de água sobre a praça, tivemos, dentro deste, outro projeto artístico que
foi o ônibus Carne de Carmela Gross, também integrante das atividades.
Quando vocês idealizaram os distintos elementos do projeto Meio Fio como
vocês visualizaram essas múltiplas camadas de informação? E ainda, retomando
essa última especulação sobre as camadas, gostaria de saber sua opinião
sobre o tipo de conjunção de pessoas, propostas e fluxos que tiveram lugar
naquele mesmo espaço. Em que medida isso se deu porque seu proponente maior
era a EMDEC/Setransp e não um Museu?
Ultradesign: Realmente
as camadas envolvidas foram várias. A preparação do evento começou meses
antes e culminou em atividades esportivas, brincadeiras, discursos,
premiação de trabalhos escolares ligados ao tema, apresentações musicais e
teatrais. Também os aspectos operacionais relativos ao trânsito, que se
estenderam até quilômetros longe do evento, tornaram-se possíveis com a
colocação de faixas explicativas e a distribuição de folhetos com orientação
dos agentes de trânsito. Tudo isso foi programado pela EMDEC num esforço de
criar uma sinergia com outros setores da sociedade, no sentido de promover
uma agenda relacionada ao grande tema da melhoria da qualidade urbana,
sintetizada pelo slogan "Preferência pela Vida". Outra camada foi a dos
elementos físicos a serem incorporados: a exposição de novos ônibus
especiais, stands de organizações não-governamentais e o próprio objeto de
arte ônibus Carne. A Ultradesign, partindo de sua origem arquitetônica e
urbanística, buscou incorporar todas essas camadas com o objetivo citado
acima, de criar uma intervenção urbana que colaborasse com o sentido de todo
o evento, ou seja, difundir a reflexão sobre o uso do carro na cidade. Em
nenhum momento nos propusemos a criar um objeto autônomo, mas um elemento de
amarração espaço-temporal do evento e do sítio, de onde emergia todo seu
significado. Se proposto por um museu, o evento provavelmente se debruçaria
sobre questões elaboradas por uma curadoria. Esse aprofundamento implicaria
em uma compreensão conceitual que acabaria por elitizar sua fruição, com um
caráter mais intelectual. O caráter funcional que o projeto Meio Fio assumiu
dentro do evento da EMDEC deu uma abertura aos significados da intervenção
que possibilitou várias camadas de experiência, acessíveis aos múltiplos
grupos participantes.
Campinas | SP | Brasil | Novembro | 2006.
veja fotos do dia sem carro no
castelo:
projeto:
ultradesign
arquitetura contemporânea
www.ultradesign.arq.br
Alcides
Barbosa e Patrícia Martins
mais sobre o
ateliê aberto
Sylvia Furegatti e Samantha
Moreira
realização:
Prefeitura Municipal de
Campinas - EMDEC - SETRANSP
www.emdec.com.br